
Imagine abrir uma caixa de ovos e encontrar uma paleta de cores que vai do azul celeste ao verde musgo, passando por tons de chocolate intenso. Essa cena, que antes parecia distante da realidade brasileira, agora começa a surgir em feiras, mercados gourmet e pequenos empreendimentos pelo país, despertando a curiosidade de consumidores atentos às novidades e às tendências de consumo diferenciadas.
Embora comuns em alguns países como nos Estados Unidos, os ovos coloridos ainda são uma peculiaridade no Brasil. A curiosidade por produtos diferenciados têm impulsionado uma movimentação ainda tímida, mas crescente, tanto entre consumidores quanto entre pequenos produtores alertas às novas oportunidades.
Mais do que estética, o que move o consumidor é a percepção de valor agregado. Há quem compre ovos pela aparência da casca, outros pela embalagem biodegradável, ou ainda pela informação de que a galinha é criada no sistema free range (ao ar livre). A escolha, cada vez mais, envolve critérios variados: bem-estar animal, origem da criação, nutrição, certificações e experiência de consumo. Em tempos de busca por diferenciais, a própria casca do ovo — colorida, única — se torna um selo visual de autenticidade. Embora não exista uma certificação formal específica para ovos coloridos, muitas vezes é a própria aparência que comunica esse posicionamento. Trata-se de uma nova guerra de mercado entre produtos que carregam, além de proteína, uma narrativa.
História e paixão: como um publicitário transformou um hobby em missão
À frente de um dos projetos mais respeitados de criação e preservação da raça Ameraucana no Brasil está o publicitário Pedro Nunes, fundador da Ameraucana Brasil Poultry, que compartilhou sua história com a nossa matéria.
“Não tínhamos pretensão de criar galinhas com a visão que temos hoje”, relembra. “No início, era apenas uma atividade terapêutica”. Em 2019, com os filhos morando fora do Brasil e uma rotina profissional estressante, ele encontrou no campo e nas galinhas uma forma de reconexão.
A paixão pela raça Ameraucana surgiu da pesquisa: aves de porte médio, precoces, que botam ovos azuis graças a uma genética específica. No entanto, a decepção veio rápido: “No Brasil, não havia Ameraucana padrão conforme a American Poultry Association (APA), apenas aves mistas comercializadas como se fossem”, explica.
Determinando-se a trazer a genética correta, ele se associou às principais instituições de avicultura dos Estados Unidos e da França, como a American Poultry Association, o Ameraucana Alliance, o Ameraucana Breeders Club e o Marans Club. Em viagens aos EUA, construiu laços com os principais nomes desenvolvedores históricos da raça, como Mike Gilbert e John Blehm.
“Esses criadores são minhas referências. Cada detalhe do manejo, da seleção rigorosa de linhagem, tudo aprendi observando-os”, conta.
Em 2019, nasceu oficialmente a Ameraucana Brasil Poultry, não como uma granja, mas como um projeto de preservação e divulgação da raça padrão Ameraucana no Brasil e América do Sul. “Não comercializamos aves nem ovos para consumo. Nosso foco é a educação e o fortalecimento genético”.
A verdadeira origem da raça Ameraucana
A história da Ameraucana é rica e muitas vezes confundida. A base da raça remonta às Easter Eggers, um termo amplamente usado para designar qualquer galinha que tenha herança genética de postura de ovos de várias cores, mas que não se qualifica como uma raça oficialmente. Levadas da América do Sul, no início do século XX, para os Estados Unidos, as aves mistas de ovos azuis conhecidas como Araucanas começaram a ganhar notoriedade local nas décadas de 1920 e 1940 pela cor única do seu ovo.
Nesse contexto, criar ovos coloridos se tornou uma tradição americana profundamente enraizada: os chamados “Ovos de Páscoa” das galinhas Easter Eggers, e os sucessivos cruzamentos das Araucanas com essas aves doméstica, resultou em uma nova diversidade de ovos das cascas coloridas. Essas galinhas são mestiças e não seguem um padrão genético ou físico específico aprovado por associações avícolas.
Com o tempo, criadores americanos passaram a selecionar essas aves para características específicas, dando origem a duas raças padrão reconhecidas: Araucana e Ameraucana.
A Araucana como raça padrão foi reconhecida e estabelecido suas características sem rabo e com tufos pela American Poultry Association em 1976. A Ameraucana uma ave com cauda e barbas era inicialmente chamada pelos criadores de American Araucana, mas em 1978 decidiram que o nome seria Ameraucana, com isso o clube da raça passou a se chamar Ameraucana Bantam Club.











