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Meio ambiente

Gestão hídrica é chave para determinar impacto da biomassa na oferta de água, diz estudo

Para que o mundo limite o aquecimento global em 1,5ºC até o fim do século, cultivos de biomassa terão que se expandir por 60 mil hectares.

Gestão hídrica é chave para determinar impacto da biomassa na oferta de água, diz estudo

A gestão dos recursos hídricos na irrigação de cultivos que poderão ser usados para substituir fontes fósseis na geração de energia será chave para agravar ou aliviar a oferta de água para a população, segundo um estudo conduzido pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), da Alemanha, e pelo International Institute for Applied System Analysis (IIASA), da Áustria.

De acordo com o estudo, para que o mundo limite o aquecimento global em 1,5ºC até o fim do século – cenário mais ambicioso do Acordo de Paris –, os cultivos de biomassa terão que se expandir por 60 mil hectares.

Para garantir a produção de biomassa dessa área, será preciso irrigação, consumindo uma água que estará cada vez mais em falta no planeta. Nas projeções do estudo com base nas expectativas de aumento da população mundial, o número de pessoas sujeitas a restrições de acesso à água poderá crescer 80% caso nada seja feito para limitar das mudanças climáticas.

E, se as irrigações dos cultivos de biomassa necessários para a substituição da matriz energética não passarem por uma gestão sustentável, o estudo avalia que o crescimento do número de pessoas sem água será ainda maior de 100%, mesmo com o uso de mecanismos de captura e estocagem de carbono (chamados de CCS). Nesses esquemas, a biomassa é queimada para a geração de energia e o gás carbônico resultante da queima é capturado e armazenado no solo.

No entanto, se a irrigação for feita com base em uma gestão hídrica sustentável, o número de pessoas sujeitas à escassez de água tende a crescer menos (60%). “Isso, é claro, ainda é um aumento, então dilemas desafiadores estão sobre a mesa”, afirmou Dieter Gerten, um dos autores do estudo, do PIK, em nota.

Ainda assim, a conclusão do estudo mostra que a gestão sustentável dos recursos hídricos “pode quase cortar pela metade o estresse de água comparado ao outro cenário analisado e fortes mudanças climáticas não mitigadas pela produção de bioenergia”, ressaltou Fabian Stenzel, autor líder do estudo, do PIK.

O estresse hídrico que deverá resultar do agravamento das mudanças climáticas tendem a afetar sobretudo o Mediterrâneo, o Oriente Médio, o nordeste da China e o sul e o sudeste da África Ocidental. No cenário de uso de bioenergia com esquemas de captura de carbono, mas sem gerenciamento de risco de água, o estresse hídrico pode afetar mais regiões, como o Nordeste do Brasil e grandes áreas da Africa subsaariana. O estudo considera em seu cenário que essas regiões terão cultivos de biomassa em larga escala demandando irrigação.

O que os autores chamam de “gestão sustentável da água” não se refere apenas a ações dos produtores da biomassa, mas também a regulações do setor público. “Gerenciamento sustentável de água significa tanto regulação política – como esquemas de precificação ou alocação de água – para reduzir os volumes de água retirados dos rios, como melhorias dentro da fazenda para tornar o uso de água mais eficiente”, afirmou Sylvia Tramberend, coautora do estudo, do IIASA, em nota. No âmbito das fazendas, medidas de gestão da água podem passar pela adoção de cisternas para coletar água da chuva ou aplicação de cobertura no solo para reduzir a evaporação.

“Além disso, o gerenciamento sustentável da água inclui a preservação da efluência de rios confiáveis para garantir ecossistemas intocados onde os rios estão. A gestão dos rios de cima a baixo pode de fato demandar cooperação internacional, chamando para uma gestão de rios transfronteiriça, assim como entre diferentes usuários da água – esse é o desafio à frente para a gestão integrada dos recursos de água”, acrescentou a pesquisadora.

Para Wolfgang Lucht, coautor do estudo e diretor do departamento de pesquisas de Análise de Sistemas da Terra do PIK, “os riscos e contrapesos têm que ser considerados cuidadosamente antes de lançar políticas de grande escala que estabelecem mercados de biomassa e infraestrutura”.