Redação AI 21/11/2002 – A avicultura de postura no Nordeste começa a entrar em colapso. Nos últimos dois meses, cinco granjas de Pernambuco e do Ceará fecharam suas portas. As empresas não estão suportando a pressão de custos, motivada pela escassez de milho e pela alta do dólar. O recuo na produção de ovos já chega a 30% na Região e o cenário pode se agravar se as importações de milho não forem iniciadas até a segunda quinzena de dezembro.
Em Pernambuco, a produção de ovos despencou de 4 milhões para 3 milhões/dia. Das 45 granjas de porte industrial instaladas no Estado, três encerraram suas operações. “Isso sem contar o desaparecimento de avicultores familiares, que reforçam a atividade do setor com pelo menos 70 granjas”, observa o vice-presidente de ovos da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), Antônio Corrêa de Araújo.
Segundo maior produtor de ovos do Nordeste, depois de Pernambuco, o Ceará amarga queda de 20% na produção, que recuou de 2,5 milhões para 2,1 milhões de ovos/dia. De acordo com a Associação Cearense de Avicultores (Aceav), das 16 granjas existentes no Estado, duas fecharam. A avicultura de postura no Ceará movimenta cerca de R$ 89 milhões/ano, contra R$ 100 milhões em Pernambuco.
O vice-presidente de ovos da Avipe alerta para a dificuldade de retomada da produção a curto prazo. “Os avicultores estão reduzindo em 20% o alojamento de pintos e descartando as poedeiras mais velhas. O ciclo de vida de uma ave é de dois anos e se houver uma diminuição drástica no alojamento dos pintos não há como fazer a reposição rapidamente”, explica. Na avaliação de Araújo, o cenário fica indefinido até o final do primeiro trimestre. No acumulado do ano o plantel foi reduzido de 5,5 milhão para 4 milhões de poedeiras.
Com duas granjas na cidade de Orobó (121 km do Recife), Araújo diz que está com capacidade ociosa de 25%. A produção de ovos caiu de 400 mil para 300 mil/dia, enquanto o plantel foi reduzido de 510 mil para 420 mil aves. As duas granjas geram 137 empregos diretos.
Formado por pequenas e médias empresas, o setor de postura é ainda mais vulnerável que a avicultura de corte. Sem capital de giro, as empresas que sobreviverem à crise terão uma redução brusca na margem de lucro e devem fechar no vermelho. Em Pernambuco, o custo de produção de uma caixa de ovos (360 unidades) chega a R$ 46,80, enquanto o preço de venda não ultrapassa R$ 44,40.
“Hoje essa distância está menor, mas tivemos períodos críticos em setembro e outubro, com defasagem de 30% no preço de venda”, lembra Araújo. No Ceará, o preço de custo é de R$ 45,00 e o valor médio de comercialização é de R$ 42,00.
“Estamos em dificuldade porque não conseguimos repassar integralmente para o preço do ovo os aumentos de custos”, reclama o presidente da Aceav, José Alberto Bessa Júnior. “É preciso lembrar que trabalhamos com um produto voltado para a população de baixa renda e que tem um peso importante na composição dos índices de inflação”, completa. Apesar do contexto, Bessa diz que nos últimos 15 dias o ovo sofreu reajuste de 20% e será necessário promover um novo aumento de 20% para reduzir a margem negativa e manter as granjas funcionando.
Para se ter uma idéia, cerca de 86% dos insumos da avicultura têm preços atrelados à moeda norte-americana. Além do milho, os produtores também precisam adquirir farelo de soja, vitaminas e nutrientes, que são balizados pelo dólar. Só o milho acumula alta de 128% no acumulado do ano. Em Pernambuco, a saca de 60 kg do produto é comercializada entre R$ 32,00 e R$ 36,00.
Os avicultores também reclamam da especulação no mercado interno de soja. Segundo informações do setor, o grão é vendido a preços pelo menos 20% acima da cotação da commodity na Bolsa de Chicago. Enquanto o preço médio da tonelada de farelo de soja é de US$ 180, o produto chega aos avicultores a US$ 210.
Além da pressão de custos, o presidente da Aceav destaca a necessidade de acelerar as importações para garantir o abastecimento de milho no primeiro bimestre de 2003. “O setor pode quebrar se não houver grão para atender a demanda de janeiro e fevereiro, quando termina a safra 2001/02 e deveria começar a próxima colheita”, frisa, lembrando que a safra atrasou em função das chuvas no Sul e da estiagem no Centro-Oeste. O governo estima que vai faltar 1 milhão de toneladas nos dois primeiros meses do próximo ano.
A redução da Tarifa Externa Comum (TEC) de 9,5% para 2% para a importação de milho fora do Mercosul é apontada como emergencial pelo setor. A redução da alíquota será discutida na próxima semana , na Comissão de Comércio do Mercosul, e a expectativa é que a medida esteja em vigência até o final do mês.











