
O governo chinês tem intensificado esforços para ampliar a segurança alimentar e diminuir a dependência de importações, com destaque para a adoção gradual de variedades geneticamente modificadas (GM) de soja e milho. A estratégia, conduzida pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA), busca aumentar a produtividade interna, reduzir os custos da ração animal e, no médio e longo prazo, influenciar os fluxos do comércio global de grãos.
No fim de 2024, o MARA concedeu certificados de segurança para cinco variedades de culturas geneticamente modificadas e 12 tipos de culturas transgênicas, sinalizando um novo estágio na política chinesa de aceitação dessas tecnologias. Embora o processo de adoção seja cauteloso, a área plantada com milho e soja GM já vem sendo expandida de forma controlada. Estimativas de analistas indicam que essas variedades podem representar cerca de 10% da área cultivada dessas culturas no país em 2025, ainda restritas a regiões específicas.
Os reflexos começam a aparecer nos números da produção agrícola. Segundo o Comitê de Perspectivas Agrícolas da China, a colheita total de grãos em 2025 deve alcançar 709 milhões de toneladas, superando o recorde de 2024. A produção de soja é estimada em 21,17 milhões de toneladas, crescimento de 2,5% na comparação anual. Testes anteriores indicaram ganhos de produtividade entre 5% e 10% com algumas variedades transgênicas, embora resultados em escala comercial tenham sido mais moderados até o momento.
Um dos principais motivadores da política é o elevado custo da ração animal na China, historicamente superior ao observado em grandes exportadores como Brasil e Estados Unidos. De acordo com especialistas, os custos chineses chegam a ser o dobro dos praticados nesses países, em função de limitações estruturais, como o tamanho médio das propriedades rurais e gargalos logísticos. A flexibilização no uso de organismos geneticamente modificados é vista como um instrumento para aliviar esses custos e tornar a pecuária nacional mais competitiva.
A adoção de transgênicos também integra uma estratégia de longo prazo voltada à segurança alimentar, tema sensível para a liderança chinesa devido à limitação de terras aráveis, restrições hídricas e ao histórico de crises alimentares no país. Nesse contexto, a política não está diretamente vinculada às tensões geopolíticas recentes, mas a uma diretriz estrutural de redução de vulnerabilidades.
Apesar do apoio governamental, a aceitação pública de alimentos geneticamente modificados na China ainda é limitada. Regras rígidas de rotulagem mantêm a possibilidade de escolha do consumidor, que tende a preferir produtos não transgênicos no curto e médio prazo. Esse fator, no entanto, tem menor impacto sobre a indústria de rações, principal destino da soja e do milho importados, onde o uso de ingredientes GM já é amplamente aceito.
Analistas avaliam que a expansão das culturas geneticamente modificadas pode reduzir os custos da ração animal em até 10%, com reflexos semelhantes nos preços de carnes, ovos e leite. Ainda assim, a produção chinesa deve permanecer menos competitiva do que a de grandes exportadores, o que limita efeitos imediatos sobre o mercado global.
Em 2024, a China importou cerca de 105 milhões de toneladas de soja, volume recorde, demonstrando que a adoção de transgênicos ainda não alterou de forma significativa a demanda externa. Já as importações de milho recuaram 49%, para 13,77 milhões de toneladas, influenciadas, entre outros fatores, pelo aumento da produção doméstica.
A introdução do cultivo comercial de milho e soja transgênicos é considerada apenas uma peça de um conjunto mais amplo de políticas para elevar a produtividade agrícola nacional. No horizonte da próxima década, especialistas projetam que esses esforços combinados devem reduzir gradualmente a dependência chinesa de importações de grãos destinados à ração animal, com impactos relevantes para o equilíbrio do mercado global.
Referência: Pig Progress











