
Com mais de 20 anos de experiência, Alberto Back é hoje uma das vozes mais experientes no debate sobre sanidade avícola no Brasil, atuando no diagnóstico laboratorial e como palestrante em saúde animal. Diretor também da MercoLab, laboratório referência em análises veterinárias, ele acompanha de perto os desafios enfrentados pelas indústrias e por produtores avícolas.
Nesta entrevista exclusiva, Back detalha os principais pontos de atenção sanitária no campo, destaca a importância crescente do diagnóstico laboratorial na tomada de decisões e analisa os efeitos da pressão sanitária sobre o desempenho produtivo das aves. O especialista também comenta os avanços em biosseguridade, o uso racional de antibióticos, as alternativas naturais para a manutenção da saúde intestinal e o impacto das novas tecnologias de diagnóstico molecular. Ao final, oferece uma análise crítica sobre os recentes episódios de Influenza Aviária em granjas comerciais — um ponto sensível para o sistema de vigilância sanitária nacional.
Avicultura Industrial: Quais os principais desafios sanitários enfrentados hoje na avicultura comercial brasileira, tanto em corte quanto em postura?
Pelos fatos recentes, o nosso maior desafio, hoje, é manter influenza aviária e a doença de Newcastle fora dos plantéis comerciais. E isto estamos conseguindo de maneira que nos tornamos referência para o mundo. Pois, os casos pontuais que ocorreram até o momento foram prontamente controlados. Outras enfermidades como: salmonelose, laringotraqueíte, coriza, bronquite infecciosa e E. coli continuam sendo desafio, mas dentro de parâmetros conhecidos e controláveis. É oportuno ressaltar que os cuidados de biosseguridade nunca foram tão importantes como no momento atual, principalmente para manter influenza e Newcastle fora dos plantéis de produção. Para isso, a prioridade é evitar contato de aves silvestres e de fundo de quintal com aves comerciais.
Avicultura Industrial: Como o uso estratégico de diagnósticos laboratoriais pode contribuir para um melhor controle sanitário nas granjas?
O controle de enfermidades, no Brasil e ao redor do mundo, têm mostrado que uma boa estrutura de laboratório é absolutamente necessária para manter a saúde e a boa produtividade das aves. O uso de técnicas modernas, como as baseadas em biologia molecular, profissionais especializados e instalações com equipamentos adequados fazem parte da estratégia laboratorial para atender os desafios de diagnósticos e monitoramento. O Brasil avançou nestes quesitos nos últimos anos, mas ainda é necessário mais investimento e atenção na estrutura laboratorial. Sem bons laboratórios para diagnósticos adequados e rápidos, expõe o plantel nacional avícola a riscos.
Avicultura Industrial: Como as novas tecnologias de diagnóstico molecular têm contribuído para um monitoramento sanitário mais preciso?
As novas tecnologias moleculares têm permitido diagnósticos rápidos e precisos como nunca antes. PCR em Tempo Real e Sequenciamento de parte ou de todo o genoma já estão disponíveis e a custos acessíveis. Por outro lado, embora haja esses avanços, ainda persiste a dificuldade dos colegas no campo em escolher as análises apropriadas e interpretar os resultados.
Avicultura Industrial: De que forma os desafios sanitários subclínicos afetam a conversão alimentar em frangos de corte?
Desafios subclínicos com comprometimento na performance sempre existiram e continuarão a existir. Nós temos que usar as ferramentas disponíveis, tais como: conhecimento epidemiológico dos agentes, monitoramento, dados de produção e principalmente técnicas moleculares para identificá-los e tomar as medidas mais assertivas possíveis. As perdas sempre têm sido absolutamente maiores do que os custos de monitoramento. Monitorar é a palavra-chave.
Avicultura Industrial: Como assegurar a sanidade intestinal em sistemas livres de antibióticos, especialmente em poedeiras?
Tarefa difícil, mas possível. Primeiro de tudo, trabalhar num bom manejo e ambiência, boa nutrição, bom programa de vacinas com monitoramento e reforço na biosseguridade. Isto parece básico, mas faz uma enorme diferença. Segundo, usar probióticos e outros aditivos como ácidos orgânicos, óleos essenciais, extratos vegetais…
Avicultura Industrial: Que papel os aditivos alternativos, como probióticos e óleos essenciais, têm desempenhado na saúde das aves?
Estes aditivos já fazem parte dos programas de saúde e performance nos plantéis produtores de carne e ovos. Importante lembrar, há produtos com diferentes resultados no mercado, nem todos têm eficiência comprovada para todos os usos. É fundamental escolher e avaliar o que melhor se adapta para cada idade e propósito da ave. Testar e monitorar tem que fazer parte da rotina de uso.
Avicultura Industrial: Quais doenças respiratórias têm sido mais recorrentes em frangos de corte, e o que pode ser feito para minimizar seus impactos?
No momento, o que mais preocupa é a bronquite infecciosa. Com o surgimento da nova variante G1-23, faz-se necessário monitoramento do processo vacinal e dos sorotipos circulantes no campo em cada região (BR, Mass ou G1-23). A partir de aí estabelecer o programa de vacina conforme o que estiver presente. Usar no máximo duas vacinas (quando usadas as três, os resultados não foram melhores do que duas). Ainda, o reaparecimento de laringotraqueíte, coriza infecciosa e E coli (APEC) em algumas regiões também merece atenção e monitoramento. Melhora na biosseguridade, atenção com densidade de aves por m2 e intervalo entre lotes, controle de doenças imunossupressoras e uso de vacina são ferramentas que podem e devem ser usadas.
Avicultura Industrial: Como a pressão sanitária pode afetar a longevidade e o desempenho produtivo das poedeiras comerciais?
Creio que a pressão sanitária pode afetar a longevidade e desempenho das poedeiras de duas maneiras. Primeira, a própria presença da doença reduz a longevidade e a produção. Podemos citar como exemplo plantéis que se infectam com micoplasma e salmonela (MG e SG). A condição sanitária interfere diretamente nestes quesitos (reduz produção e longevidade economicamente viável). Segunda, os problemas sanitários, como os citados e outros, fazem com que o tempo de vida produtivo seja reduzido para que um novo ciclo em melhores condições se inicie. Atuar preventivamente com boa biosseguridade pode diminuir a pressão sanitária que compromete a produtividade e a longevidade. Esta é uma tarefa um pouco mais complexa quando falamos em plantéis de idades múltiplas.
Avicultura Industrial: Pensando em climatização e no ambiente interno, como o manejo inadequado influencia diretamente a incidência de doenças em aves, especialmente em sistemas intensivos?
Apesar de parte da avicultura, tanto de postura como de corte, ainda estarem em sistemas de instalações convencionais, a expansão mais recente é moderna com tecnologias avançadas. Hoje, os aviários são climatizados com controle de pressão, velocidade de ar, temperatura, gases, medicação… e com isso uma maior densidade de aves. Caso esta modernização não vier acompanhada de um bom domínio das tecnologias digitais, pode favorecer o aparecimento de enfermidades e eventuais perdas de performance. O domínio dos painéis digitais vem se tornando uma necessidade. Quem não for capaz de se adaptar corre risco de a médio prazo sair do mercado.
Avicultura Industrial: Em relação à biosseguridade, quais são os erros mais comuns observados no campo e como evitá-los?
Tanto para aves de corte como de postura comercial, a biosseguridade é a melhor ferramenta de prevenção e controle das enfermidades e como consequência, na melhora da produção. Sabemos o que tem que ser feito, mas a nossa dificuldade não está no convencimento e na capacidade de implementação daquilo que se conhece. Novas tecnologias sempre serão bem-vindas, mas o que mais necessitamos é fazer o que já sabemos. É certo que uma das maiores dificuldades para implementar boa biosseguridade é a criação em idades múltiplas. Este é um desafio que temos que enfrentar e de difícil solução. Sempre a biosseguridade em plantéis muito grandes ou em idades múltiplas vai ser inferior aos plantéis de idade única onde se pode praticar all-in-all-out.











