
Traços de microplásticos foram identificados em uma ampla variedade de produtos avícolas, segundo afirmou Alexey Tretyakov, vice-diretor do VGNKI, instituto de pesquisa veterinária ligado ao órgão de vigilância sanitária da Rússia, o Rosselhoznadzor. A constatação indica que esse tipo de material já ingressou na cadeia alimentar das aves, ampliando as preocupações sobre seus impactos na produção avícola.
De acordo com Tretyakov, um número crescente de estudos científicos aponta que os microplásticos podem afetar diretamente a saúde e a produtividade das aves. Pesquisas que analisaram a exposição desses materiais na avicultura indicam possíveis danos ao sistema digestivo, o surgimento de condições neurodegenerativas e até lesões cerebrais nos animais.

Resultados recentes do VGNKI também associaram a presença de microplásticos ao desenvolvimento da doença hepática gordurosa em aves, condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado. O problema pode provocar fraqueza, perda de peso, letargia e queda significativa no desempenho produtivo. Segundo o pesquisador, a contaminação por microplásticos ainda é frequentemente subestimada, apesar de representar um risco potencial tanto para a saúde animal quanto para o consumidor.
Durante os estudos, vestígios de microplásticos foram encontrados não apenas na carne de frango, mas também nos ovos. Tretyakov ressaltou que os níveis analisados não foram artificialmente elevados, mas baseados em concentrações já descritas na literatura científica, o que reforça a relevância dos achados para a realidade da produção avícola.
A preocupação com os microplásticos vem crescendo porque esses materiais não se degradam completamente no ambiente, fragmentando-se em partículas microscópicas capazes de interagir com organismos vivos. Embora o debate inicial estivesse mais concentrado na contaminação dos oceanos e nos impactos sobre a aquicultura, evidências recentes mostram que a agricultura terrestre, incluindo a avicultura, também está exposta ao problema.
Segundo Tretyakov, os microplásticos podem atravessar barreiras intercelulares e atuar como vetores de substâncias químicas e poluentes, o que amplia os riscos à saúde. A característica mais preocupante desse tipo de contaminação é sua capacidade de penetrar no organismo de forma silenciosa, dificultando a detecção precoce.
Não é a primeira vez que pesquisadores alertam para os efeitos dos microplásticos na indústria avícola. Estudos anteriores já associaram a exposição — por ingestão, inalação ou contato dérmico — a atraso no crescimento, enfraquecimento do sistema imunológico, redução da fertilidade e danos aos tecidos das aves, com reflexos diretos sobre o bem-estar animal e a sustentabilidade da produção.
Diante desse cenário, pesquisadores russos pretendem intensificar as investigações sobre a contaminação por microplásticos na avicultura. Os próximos estudos devem focar na identificação das principais fontes desses materiais ao longo da cadeia produtiva e na avaliação de medidas práticas para reduzir a exposição, incluindo ajustes na formulação das rações, no uso de materiais nos sistemas de alojamento e no fortalecimento das práticas de biossegurança.
Referência: Poultry World











