
Cerca de 17 meses após a identificação de um surto de influenza aviária altamente patogênica H5N1 em rebanhos leiteiros no estado de Nebraska, nos Estados Unidos, novas evidências científicas indicam que o vírus passou por um processo acelerado de adaptação a mamíferos. O patógeno, inicialmente associado a aves, espalhou-se entre bovinos e voltou a ser detectado em aves domésticas, pássaros silvestres, outros mamíferos e também em humanos.
As conclusões fazem parte de um artigo publicado na revista Nature Communications, assinado por pesquisadores do Instituto Pirbright e de seis instituições colaboradoras. O estudo analisou o genótipo B3.13 do H5N1, atualmente circulante em rebanhos leiteiros norte-americanos, e demonstrou que o vírus acumulou rapidamente mutações genéticas que aumentaram sua capacidade de replicação em células de mamíferos, incluindo células humanas.
De acordo com os pesquisadores, as principais alterações ocorreram nos genes da polimerase viral, responsáveis pela replicação do genoma do vírus após a transmissão de aves para mamíferos. Uma das mutações, identificada como PB2 M631L, esteve presente em todas as sequências de vírus isoladas de bovinos analisadas no estudo. Outra mutação relevante, PA K497R, foi observada na grande maioria das amostras.
A partir de análises genéticas, estruturais e funcionais, o trabalho demonstrou que a mutação PB2 M631L melhora significativamente a interação da polimerase viral com a proteína hospedeira ANP32, especialmente a variante bovina ANP32A. Essa interação é considerada essencial para uma replicação viral eficiente. Como consequência, os vírus portadores dessa mutação apresentaram maior capacidade de multiplicação em tecido mamário bovino, em células respiratórias de bovinos e em culturas primárias de vias aéreas humanas.
O estudo também encontrou evidências de evolução contínua do vírus dentro dos rebanhos bovinos. Outras mutações na polimerase, como a clássica adaptação a mamíferos PB2 E627K e a alteração recorrente PB2 D740N, contribuíram para aumentar a replicação viral em diferentes tipos de células de mamíferos, sem prejuízos relevantes à capacidade de replicação em aves.
Para o pesquisador Thomas Peacock, coautor correspondente do estudo e integrante do Instituto Pirbright, os resultados indicam um cenário preocupante. Segundo ele, a circulação do H5N1 em bovinos leiteiros está impulsionando ativamente a adaptação do vírus a mamíferos, o que eleva o risco de transmissão zoonótica. Embora os casos humanos associados ao surto tenham sido, até o momento, leves e limitados, o vírus adaptado ao gado mostrou elevada eficiência de replicação em células humanas, mantendo ainda a capacidade de infectar aves e suínos.
Os autores alertam que, apesar de não haver evidências atuais de transmissão eficiente entre humanos, a exposição contínua e a evolução do vírus aumentam o risco de novas adaptações que possam alterar esse quadro. Diante disso, o estudo reforça a necessidade de vigilância sanitária permanente da influenza em bovinos e em outras espécies, com atenção especial às mutações nos genes da polimerase que indicam adaptação a mamíferos.
Os pesquisadores também defendem o avanço urgente no desenvolvimento de vacinas contra o H5N1 com amplo espectro de proteção, tanto para uso em animais quanto em humanos, como medida estratégica para reduzir riscos sanitários e impactos à saúde pública e à produção agropecuária.
Referência: Poutry World











