
O governo do Reino Unido anunciou a intenção de eliminar gradualmente o uso de gaiolas de colônia enriquecidas na produção de ovos, com prazo final até 2032, decisão que provocou forte reação de entidades representativas da avicultura e do setor agropecuário. A proposta está em consulta pública desde meados de janeiro, conduzida pelo Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra), com encerramento previsto para 9 de março.
Entre as principais medidas apresentadas está a proibição da construção ou do início de operação de novos sistemas de gaiolas enriquecidas para galinhas poedeiras a partir de 2027. A proposta também prevê o fim do uso de gaiolas convencionais do tipo bateria para produtores com menos de 350 aves já a partir de 2026 e, por fim, a proibição completa de todas as gaiolas enriquecidas existentes, independentemente da escala produtiva, até 2032. A restrição também se estende a sistemas de gaiolas utilizados para frangas e aves reprodutoras.
O Conselho Britânico da Indústria de Ovos (BEIC) criticou duramente a iniciativa, destacando que o governo não apresentou compromissos equivalentes para restringir a importação de ovos e produtos derivados produzidos em sistemas que seriam considerados ilegais no Reino Unido. Para a entidade, a medida pode gerar distorções comerciais, penalizando os produtores nacionais sem garantir avanços proporcionais no bem-estar animal.
Segundo o diretor executivo do BEIC, Nick Allen, os consumidores britânicos já dispõem de informações claras sobre os sistemas de produção, uma vez que os ovos são identificados nas embalagens e nas próprias cascas. Para ele, qualquer mudança regulatória deveria ser acompanhada por regras de comércio justo, impedindo a entrada de produtos oriundos de sistemas proibidos no mercado interno.
A União Nacional dos Agricultores (NFU) também manifestou preocupação, ressaltando que os sistemas de gaiolas enriquecidas ainda desempenham papel relevante ao garantir oferta de ovos a preços acessíveis e ampliar as opções disponíveis ao consumidor. O presidente da entidade, Tom Bradshaw, afirmou que os produtores britânicos já operam sob rigorosos padrões legais e de bem-estar animal e alertou para o risco de transferência da produção para países com exigências inferiores.
Do outro lado, o governo britânico defende que a proposta segue recomendações do Comitê Independente de Bem-Estar Animal e reflete a expectativa da sociedade por padrões mais elevados. A ministra da Agricultura, Angela Eagle, declarou que a iniciativa busca equilibrar bem-estar animal, sustentabilidade e viabilidade econômica, criando condições para uma produção alinhada às demandas dos consumidores.
Dados do próprio Defra indicam que os ovos provenientes de galinhas alojadas em gaiolas enriquecidas representam pouco mais de 20% da produção de ovos com casca no Reino Unido. O órgão argumenta que, mesmo com melhorias em relação às antigas gaiolas de bateria, esses sistemas ainda limitam comportamentos naturais das aves, como correr, abrir as asas, ciscar e tomar banho de areia. O posicionamento do governo é reforçado pelo compromisso de grandes redes varejistas britânicas, como Sainsbury’s e Aldi, que já deixaram de comercializar ovos produzidos em sistemas de gaiolas.
Organizações de bem-estar animal, como a Compassion in World Farming UK e a RSPCA, comemoraram a abertura da consulta pública. Para essas entidades, a medida representa um avanço histórico rumo à eliminação definitiva das gaiolas na produção animal no país, alinhando o Reino Unido às práticas consideradas mais avançadas em bem-estar animal.
A proposta reacende o debate sobre competitividade, segurança alimentar e padrões produtivos, em um momento em que o Reino Unido busca redefinir sua política agrícola e comercial. O resultado da consulta pública deverá indicar se o país avançará para um modelo totalmente livre de gaiolas ou se ajustes serão necessários para mitigar impactos econômicos sobre a avicultura britânica.
Referência: Poultry World











