
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, viaja a Iowa nesta terça-feira em um esforço para reforçar o apoio político em um dos estados mais estratégicos de sua base rural, em um momento de crescente pressão sobre a economia agrícola e de atrasos nas políticas de biocombustíveis que vêm testando a paciência de agricultores e produtores de combustíveis renováveis.
A visita ao maior produtor norte-americano de milho, suínos e etanol ocorre em um cenário marcado por preços deprimidos das safras, custos elevados de produção e incertezas regulatórias. Esses fatores têm impactado diretamente a rentabilidade do setor e levantado preocupações sobre a manutenção da popularidade de Trump no chamado cinturão agrícola dos Estados Unidos.
O agricultor Lance Lillibridge, de 56 anos, produtor de milho e gado no município de Vinton, afirmou que pretende viajar cerca de duas horas até a região de Des Moines para acompanhar a visita presidencial. Segundo ele, os efeitos da guerra comercial com a China e o aumento dos custos de insumos como sementes e fertilizantes têm sido severos. Lillibridge defende que o governo avalie a implementação de um novo pacote bilionário de ajuda ao setor agrícola. “Vai ter que haver alguma coisa, porque agora tudo está simplesmente terrível. Nunca estive tão sem dinheiro em toda a minha vida”, afirmou, dizendo-se um apoiador de Trump “na maior parte do tempo”.
A agenda em Iowa acontece enquanto a Casa Branca enfrenta repercussões de uma crise no estado vizinho de Minnesota, onde a morte do cidadão americano Alex Pretti, de 37 anos, durante um protesto em Minneapolis, após ação de agentes federais de imigração, desencadeou manifestações e pedidos por investigações independentes.
Segundo integrantes do governo, Trump deve destacar o apoio da atual administração à agricultura e aos combustíveis renováveis, além de apresentar sua agenda econômica mais ampla, com o discurso de redução dos custos de alimentos, combustíveis e produtos domésticos. Para o economista agrícola Scott Irwin, da Universidade de Illinois, embora as políticas comerciais de Trump tenham prejudicado os produtores, o governo tem buscado compensar essas perdas com flexibilização regulatória e manutenção de preços mais baixos dos combustíveis. “Enquanto Trump e um Congresso republicano estiverem dispostos a compensar uma parcela significativa das perdas nas colheitas com programas especiais, o apoio do setor tende a se manter”, avaliou.
Apesar disso, a percepção da população em geral segue negativa. Pesquisa Reuters/Ipsos encerrada no domingo indica que apenas 30% dos americanos aprovam a forma como Trump lida com o aumento do custo de vida, enquanto 59% desaprovam, incluindo nove em cada dez democratas e um em cada cinco republicanos.
A pressão sobre a economia agrícola dos Estados Unidos se intensificou nos últimos anos. A oferta abundante de grãos tem pressionado os preços, enquanto os custos de produção permanecem elevados, resultando no terceiro ano consecutivo de preços baixos para as principais culturas. Esse cenário afeta desde a venda de máquinas agrícolas até os resultados financeiros de grandes empresas do agronegócio.
Os atrasos na definição da política de biocombustíveis agravaram ainda mais a situação. O governo adiou a divulgação das cotas finais de mistura obrigatória de biocombustíveis para 2026, conhecidas como Obrigações de Volume Renovável (RVOs). Além disso, seguem pendentes as diretrizes tributárias relacionadas aos créditos 45Z para combustíveis renováveis e a aprovação, pelo Congresso, da venda durante todo o ano da gasolina com 15% de etanol (E15), uma antiga demanda dos produtores de milho.
“Sem a distribuição nacional e contínua do E15, muitos de nós continuaremos dependendo de auxílios governamentais para sobreviver”, afirmou Mark Mueller, presidente da Associação de Produtores de Milho de Iowa.
A indefinição regulatória tem impactado de forma mais direta a indústria de biodiesel do estado. Em 2025, as usinas de biodiesel de Iowa produziram 244 milhões de galões, uma queda de 31% em relação a 2024, segundo a Associação de Combustíveis Renováveis de Iowa. Em plena capacidade, o parque industrial poderia produzir mais de 400 milhões de galões por ano. “2025 foi um verdadeiro golpe duro para o biodiesel em todo o país, e Iowa não foi exceção”, afirmou Monte Shaw, diretor executivo da entidade. Segundo ele, a combinação de incertezas tributárias e cotas reduzidas de biocombustíveis tem levado diversas usinas a operar no limite da viabilidade econômica, enquanto aguardam definições de Washington.











