Redação SI 07/10/2005 – Encerrando as atividades do segundo dia do Congresso da Abraves, o professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), David Barcellos, falou sobre a utilização dos antimicrobianos na ração de suínos.
O auditório completamente lotado dava mostras da importância do tema e, sobretudo, da preocupação da classe veterinária com a determinação da União Européia de banir o uso de antibióticos e aditivos promotores de crescimento da alimentação animal a partir do próximo ano.
O assunto é delicado. A decisão da União Européia não pode ser entendida como isolada. A Europa, além de um grande e atrativo mercado para qualquer país exportador, é formadora de opinião. Sua postura costuma influenciar outros grandes mercados como o japonês e o da própria Rússia, maior cliente da carne suína brasileira.
Portanto, se quiser continuar participando ativamente do comércio suinícola internacional, o Brasil, muito provavelmente, terá que se alinhar à determinação européia. Dez entre dez especialistas afirmam, no entanto, que os impactos decorrentes dessa adequação serão fortes. A necessidade da realização de alterações no sistema produtivo, devido à retirada de medicamentos da alimentação animal, significará a elevação dos custos de produção, fato que, em última instância, se refletirá na ponta oposta da cadeia produtiva, o consumidor, que, certamente, terá que pagar mais pelo produto final.
De acordo com Barcellos, é consenso entre os profissionais da medicina veterinária a necessidade de se limitar parcialmente a utilização de antibióticos na ração fornecida aos animais. O especialista ressalta, no entanto, que a decisão dos países da União Européia tem um caráter muito mais político do que técnico. ” A experiência da retirada desses produtos, sem uma consulta prévia, de forma abrupta, sem um estudo científico sério que permita uma avaliação mais racional, significou o aumento da prevalência de doenças nos rebanhos europeus” , advertiu. ” Isso se refletiu num prejuízo à saúde do animal, colocando a classe veterinária numa situação desconfortável, uma vez que ao nos formarmos fazemos um juramento de preservar a saúde dos animais” .
O professor da UFRGS citou o exemplo da Dinamarca, que em 1998 baniu o uso de antimicrobianos promotores de crescimento de seu sistema de criação suinícola e registrou uma queda de 5% na produtividade de seu rebanho. ” Além da queda de produtividade, os dinamarqueses aumentaram o uso de antimicrobianos curativos” . Para o especialista, tal situação comprova a ineficácia desse sistema de retirada compulsória como estratégia para o banimento dos medicamentos.
Barcellos argumentou ainda que algumas das premissas que sustentam essa decisão européia – o risco de resíduos nas carcaças animais e a resistência das bactérias aos antibióticos – são discutíveis. Segundo o professor, um estudo publicado recentemente na Dinamarca, por exemplo, demonstra que após a retirada dos antimicrobianos das rações, as resistências das bactérias intestinais do suíno não diminuíram. ” Muito pelo contrário, têm aumentado geometricamente em função desse aumento da utilização dos produtos de forma terapêutica” , explicou.
Alternativas – Diante da iminente proibição da utilização de medicamentos da alimentação animal, Barcellos apontou em sua apresentação, alguns prováveis caminhos que podem ser seguidos pelo setor suinícola brasileiro. ” Uma das saídas é soltar nossos animais no campo, colocá-los novamente em situações de baixíssimo estresse” , afirmou. ” Nessa situação vamos trocar doenças agudas por doenças crônicas como verminose, cisticercose, enfim, por enfermidades que não precisam ser tratadas com antibióticos” .
Outra alternativa, diz o especialista, seria a revisão dos sistemas de produção atualmente adotados. ” Acredito que caminhamos para um sistema de intensificação excessivo que deverá ser revisto com a adoção de sistemas menos intensivos, mais favoráveis e benéficos aos animais” , afirma o especialista.
Segundo Barcellos, será preciso também melhorar o manejo dos animais, a nutrição e intensificar medidas de biosseguridade, como vazio sanitário e adotar programas de lavagem e desinfecção mais eficientes. ” Precisamos repensar muita coisa” , diz o professor.
Barcellos ressaltou ainda a necessidade de eliminar algumas enfermidades do sistema produtivo suinícola. Segundo ele, uma ferramenta de grande valia é a produção de rebanhos livres de doenças ou pelo menos a retirada de algumas enfermidades do sistema de produção. Segundo ele, isso pode ser feito através da adoção de programas de despovoamento parcial, de desmame precoce, de erradicação de doenças, entre outros. ” Existe uma série de ferramentas para redução do número de patógenos das granjas que estão sendo bastante utilizadas nos países mais desenvolvidos e que deverão servir de exemplo para nossa suinocultura” , afirma. ” Acredito que, em médio prazo, esses programas deverão ser a coqueluche diante da necessidade da redução de antibióticos” .











