
A agricultura dos Estados Unidos enfrenta um período de crescente tensão econômica, marcado pela combinação de preços agrícolas deprimidos, custos de produção elevados e restrição ao crédito rural. O cenário, descrito por produtores, economistas e entidades do setor, aponta para mais um ano difícil no campo, com impactos que já se espalham pelas áreas rurais, atingindo bancos, indústrias, frigoríficos e o mercado de trabalho.
Dados recentes do governo americano reforçam o quadro de alerta. A safra foi maior do que o esperado, enquanto os estoques de milho alcançaram níveis recordes em dezembro, pressionando ainda mais as cotações. Esse excesso de oferta, somado ao enfraquecimento das exportações, especialmente para a China, limita as perspectivas de recuperação da rentabilidade no curto prazo.
Produtores relatam dificuldades crescentes para manter as operações. Instituições financeiras têm reduzido a concessão de crédito justamente no momento em que os agricultores mais precisam de recursos para custear o plantio e honrar dívidas operacionais. Segundo relatos do mercado, há bancos recusando financiamentos e produtores sem capacidade de quitar compromissos assumidos na safra anterior.
A dependência de fatores externos torna o cenário ainda mais incerto. Uma eventual melhora passa pela resolução das disputas comerciais, pela retomada das compras chinesas, por políticas domésticas mais favoráveis aos biocombustíveis e até por problemas climáticos em países concorrentes na produção de grãos. Mesmo o pacote de ajuda federal de US$ 12 bilhões é considerado insuficiente para compensar as perdas causadas pelos baixos preços e pela redução das exportações.
Os custos de produção seguem elevados, com destaque para os fertilizantes, e devem permanecer pressionando as margens em 2026. Projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indicam aumento nos custos totais tanto para o milho quanto para a soja, enquanto os preços pagos aos produtores permanecem abaixo dos níveis necessários para atingir o ponto de equilíbrio.
Nesse contexto, não há, segundo economistas agrícolas, uma cultura claramente rentável. A combinação de custos altos e preços baixos afeta principalmente os produtores de grãos, ampliando o risco financeiro e reduzindo a capacidade de investimento no campo.
Os efeitos já aparecem nos indicadores financeiros. Instituições como o CoBank, um dos principais financiadores do agronegócio americano, registraram deterioração na qualidade do crédito e aumento expressivo nas provisões para perdas. Ao mesmo tempo, cresce o número de pedidos de falência rural. Nos primeiros nove meses de 2025, quase 300 produtores recorreram ao Capítulo 12, mecanismo criado para reestruturar dívidas agrícolas, número significativamente superior ao do ano anterior.
A crise também se reflete na indústria de máquinas agrícolas. As vendas de tratores e colheitadeiras caíram de forma acentuada, levando agricultores a prolongar o uso de equipamentos antigos, o que tem resultado em maior incidência de falhas e até incêndios em máquinas no campo. Paralelamente, grandes fabricantes anunciaram demissões em série, agravando o impacto econômico nas comunidades rurais.
Além do setor produtivo, o enfraquecimento da agricultura ameaça empregos em escolas, hospitais e serviços públicos nas áreas rurais, ampliando o efeito social da crise. Economistas alertam que cortes em programas sociais e de saúde podem aprofundar ainda mais as dificuldades nessas regiões.
O retrato que se desenha é o de uma América rural sob forte pressão, em que o alívio pontual já não é suficiente. O setor cobra políticas estruturais e previsibilidade de longo prazo para que os agricultores consigam atravessar um período prolongado de margens apertadas e incertezas econômicas.











