
A visita do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, à China foi interpretada como mais uma vitória diplomática de Pequim em sua crescente rivalidade com Washington. No entanto, os acordos firmados durante a viagem também evidenciam os limites da estratégia de equilíbrio adotada por potências médias que buscam alternativas diante do distanciamento dos Estados Unidos sob a nova administração de Donald Trump.
Starmer segue os passos do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que realizou visita semelhante semanas antes, fechando acordos comerciais com a China e, posteriormente, defendendo em Davos uma nova ordem comercial global. Esse movimento ocorre em um contexto no qual o presidente norte-americano tem rompido ou tensionado laços históricos com aliados tradicionais, gerando incertezas no comércio internacional e na cooperação estratégica.
Líderes europeus, além do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, também intensificaram agendas diplomáticas com Pequim desde o início do segundo mandato de Trump, há cerca de um ano. Ainda assim, analistas questionam quais benefícios econômicos e de segurança, de fato duradouros, essas iniciativas podem gerar para países ocidentais. Para John Quelch, especialista em estratégia global da Universidade Duke Kunshan, os aliados tradicionais dos Estados Unidos sentem-se pressionados, mas estão longe de substituir Washington por Pequim como parceiro estratégico central.
Na visão de Londres, Ottawa e outras capitais ocidentais, as visitas funcionam como um recado político à Casa Branca, sinalizando que existem alternativas caso a pressão norte-americana se intensifique em temas como a Groenlândia ou a renegociação do acordo comercial USMCA entre Estados Unidos, Canadá e México. Ainda assim, para Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, esses gestos têm alcance limitado e representam mais simbologia política do que mudanças estruturais em um cenário de crescimento global estagnado.
Segundo ela, as visitas expõem a vulnerabilidade das potências médias, que disputam espaço em um mercado chinês marcado por excesso de capacidade produtiva e por uma avalanche de exportações que pressiona indústrias locais ao redor do mundo. Esse contexto, por outro lado, favorece Pequim ao reforçar sua narrativa de parceira confiável em contraste com as políticas tarifárias erráticas e as ameaças frequentes da atual administração norte-americana.
Durante a viagem, Starmer obteve avanços pontuais, como a isenção de visto por até 30 dias para cidadãos britânicos que viajam à China e a redução de tarifas sobre o uísque britânico. Também foi anunciado um investimento de US$ 15 bilhões da farmacêutica AstraZeneca no país asiático. Em contrapartida, temas sensíveis como a crescente pressão chinesa sobre Taiwan, o fortalecimento dos laços com a Rússia após a invasão da Ucrânia e as acusações de violações de direitos humanos em Hong Kong resultaram apenas na promessa de um “diálogo franco”.
Críticas internas no Reino Unido e nos Estados Unidos destacaram riscos relacionados à segurança, incluindo denúncias de espionagem e violações de direitos humanos, que Pequim nega. Situação semelhante ocorreu com o Canadá, já que a expectativa de redução de tarifas chinesas sobre produtos agrícolas e frutos do mar foi acompanhada por ameaças de tarifas de até 100% por parte de Trump, em resposta à abertura do mercado canadense a veículos elétricos chineses.
Antes mesmo do fim da visita de Starmer, Washington alertou Londres sobre os riscos de aprofundar relações comerciais com a China. O pano de fundo dessas tensões é o crescimento chinês fortemente baseado em exportações. Em 2024, as importações do país permaneceram praticamente estáveis em US$ 2,6 trilhões, concentradas sobretudo em energia e commodities de mercados emergentes, enquanto o superávit comercial saltou 20%, atingindo o recorde de US$ 1,2 trilhão.
Com esse ritmo, analistas projetam que o superávit comercial da China possa se aproximar do tamanho da economia francesa até 2030 e da alemã até 2033. Os dados mostram que, no último ano, as exportações chinesas para a União Europeia cresceram 8,4%, enquanto as importações caíram 0,4%. Para o Reino Unido, as vendas avançaram 7,8% e as compras recuaram 4,7%. No comércio com o Canadá, as exportações chinesas aumentaram 3,2%, enquanto as importações despencaram 10,4%.
Para Eswar Prasad, ex-diretor do FMI para a China e atualmente professor da Universidade Cornell, ampliar a integração comercial com Pequim representa riscos significativos para países que buscam proteger ou expandir suas próprias indústrias manufatureiras. Segundo ele, a China dificilmente oferece um porto seguro para economias que tentam compensar os impactos adversos das tarifas norte-americanas.
Ainda assim, alguns analistas avaliam que, no momento, conquistas comerciais expressivas com a China podem não ser realistas para países como Reino Unido e Canadá. Nesse contexto, reestabelecer canais de diálogo e reduzir tensões já seria um ganho relevante, especialmente após períodos de deterioração das relações que expuseram dependências críticas nas cadeias globais de suprimentos.
Para Noah Barkin, especialista em Europa e China do German Marshall Fund e do Rhodium Group, as visitas de Starmer e Carney representam sobretudo um triunfo de imagem para Pequim. Segundo ele, não se trata de uma guinada estratégica em direção à China, mas de uma tentativa pragmática de reduzir tensões em um cenário no qual nenhum país deseja entrar em confronto aberto simultâneo com as duas maiores potências globais.











