
Como devem ter constatado nossos leitores habituais, viver em Bruxelas, no coração da União Europeia, permite observar de perto debates que, embora tratados como questões econômicas, carregam enorme peso político e geoestratégico. É o caso do acordo comercial com o Mercosul, envolvendo Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, tema sobre o qual tenho escrito nas últimas semanas. Frequentemente resumido aqui com a imagem do “bife argentino em troca de carros alemães”, o acordo é muito mais complexo, e seus impactos são distribuídos de maneira desigual.
Do lado europeu, existem claros vencedores. A indústria automobilística se beneficia do acesso a mercados e peças de reposição; setores como química, farmacêutica e luxo veem oportunidades de expansão; e empresas de serviços – bancos, seguros, telecomunicações e turismo – aguardam o impulso que o acordo pode trazer. Além disso, o Mercosul garante proteção a centenas de denominações europeias de vinhos e queijos, reforçando a competitividade de produtos de alto valor agregado.
O agronegócio europeu, por outro lado, enfrenta desafios significativos. Carne bovina, aves, açúcar e etanol provenientes do Mercosul disputarão espaço com produtos locais, exigindo adaptação e estratégias de diferenciação. No entanto, o impacto total permanece moderado: estima-se que a entrada adicional de carne bovina represente cerca de 7% do consumo europeu. Alguns setores agrícolas, como o vitivinícola, até se beneficiam do acordo.
Um aspecto estratégico, muitas vezes subestimado no debate público, é o acesso a matérias-primas críticas, como lítio, grafite e manganês, essenciais para a transição energética e tecnologias de baixo carbono. Com Estados Unidos, China e Rússia em competição direta, o acordo permite à União Europeia fortalecer sua posição em um mercado global cada vez mais disputado.
Do lado do Mercosul, os vencedores incluem produtores de soja, carne e etanol. Já a indústria de equipamentos, automotiva e de bens industriais enfrenta concorrência europeia, destacando o risco de acelerar a desindustrialização e aumentar a dependência de exportação de commodities. Ainda assim, os países do bloco valorizam o acordo como instrumento de diversificação econômica e inserção estratégica, em um contexto global marcado pela rivalidade entre grandes potências.
Por fim, há oportunidades mais discretas, mas significativas, para o consumidor europeu, incluindo produtores de batata, maçã e pera, que podem se beneficiar de tarifas reduzidas. Para a Bélgica, país com tradição agrícola e industrial, o equilíbrio entre interesses comerciais e estratégicos será determinante.
O acordo Mercosul–União Europeia não é apenas sobre carne e carros: é um exercício de equilíbrio entre economia, geopolítica e sustentabilidade. Os desafios existem, mas a assinatura oferece à Europa uma oportunidade rara de reforçar sua presença global, garantir acesso a recursos estratégicos e diversificar mercados, enquanto estimula setores capazes de gerar valor agregado.
Para o Brasil, cabe atenção redobrada: este acordo não pode se tornar um Cavalo de Troia contra os nossos interesses econômicos e estratégicos. A vigilância e a negociação cuidadosa serão fundamentais para que o país saia fortalecido neste cenário.











