
A concessão de financiamentos pelas linhas tradicionais de crédito rural recuou cerca de 15% na primeira metade do Plano Safra 2025/26, refletindo um ambiente de juros elevados, maior endividamento dos produtores e restrições impostas pelas instituições financeiras. O volume desembolsado somou R$ 188 bilhões, abaixo dos R$ 220,3 bilhões registrados nos seis primeiros meses da safra anterior, segundo dados do Banco Central compilados pela reportagem.
A retração foi mais intensa nas operações de investimento e entre grandes produtores, que vêm recorrendo com maior frequência ao mercado de capitais, especialmente às emissões de Cédulas de Produto Rural (CPR). Até novembro de 2025, o financiamento via CPR cresceu 30% e já ultrapassava R$ 101 bilhões, dentro de uma previsão de R$ 188,5 bilhões até o fim de junho. O Plano Safra 2025/26 foi anunciado com R$ 594,4 bilhões, dos quais R$ 405,9 bilhões correspondem ao crédito rural tradicional, sem considerar esses títulos.
O acesso ao crédito para investimentos caiu quase 29%, para R$ 42,4 bilhões, mantendo a tendência negativa observada na safra anterior. No ciclo 2024/25, a contratação desse tipo de financiamento já havia sido 12% menor em relação a 2023/24, com desembolso de R$ 96,3 bilhões em 12 meses. O recuo foi puxado sobretudo pelos grandes produtores, que reduziram em 23% a contratação entre julho de 2024 e junho de 2025, somando R$ 59 bilhões.
O movimento é atribuído, em grande parte, à escalada dos juros e à menor disposição dos agricultores em assumir compromissos de longo prazo com taxas de dois dígitos. Margens mais pressionadas também levam ao adiamento de investimentos, como a renovação do parque de máquinas. No crédito de custeio, a queda foi de 15%, para R$ 127,1 bilhões entre julho e dezembro de 2025. Na comercialização, o recuo foi de 9%, para R$ 18,1 bilhões. A única exceção foi o crédito para industrialização, que cresceu 40%, alcançando R$ 19 bilhões.
Para o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, o cenário revela uma regressão contínua do Plano Safra. Segundo ele, a combinação de juros altos, menor liquidez no campo e regras mais rigorosas de provisionamento de perdas tem reduzido o apetite dos bancos para emprestar a um setor com inadimplência crescente. “O Plano Safra de 2025 já foi menor que o de 2024 e, em 2026, será menor ainda. Isso caracteriza a maior crise de crédito rural desde o início do Plano Real”, avalia.
Luz afirma que, com a Selic em 15%, não há atividade agrícola capaz de sustentar esse custo financeiro. Nesse contexto, grandes produtores tendem a reduzir a tomada de crédito, utilizando mais recursos próprios ou buscando alternativas no mercado, enquanto agricultores familiares seguem acessando linhas subsidiadas. “Quem está mais capitalizado trava novos investimentos, o que reduz a demanda por crédito”, observa.
Segundo o economista Francisco Faria Pessoa, do FGV Ibre, o cenário é ainda mais delicado para produtores afetados pela queda nos preços das commodities, como a soja, especialmente aqueles que arrendaram terras no pico das cotações. Enquanto grandes produtores acessaram cerca de 20% menos recursos, médios e pequenos tiveram recuos menores, próximos da estabilidade.
A agricultura familiar, atendida por linhas com juros entre 2% e 8% ao ano, manteve o ritmo de contratações. O desembolso do Pronaf alcançou R$ 37,6 bilhões entre julho e dezembro de 2025. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, afirma que não há crise nesse segmento e atribui o desempenho à forte equalização das taxas e aos juros reais negativos para a produção de alimentos.
O retorno de pequenos produtores ao sistema financeiro também foi impulsionado pelo Desenrola Rural, programa que permitiu a repactuação de R$ 16 bilhões em dívidas. Até o fim de 2025, cerca de 345 mil famílias foram atendidas em mais de 680 mil operações. Com isso, o número de contratos do Pronaf cresceu 11% no início da safra, superando 1 milhão de operações até dezembro.










