
As manifestações de agricultores europeus contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul ganharam força nesta semana, com bloqueios, inspeções simbólicas de cargas e mobilizações coordenadas em diversos países. O estopim foi o aval provisório dado pela maioria dos Estados-membros da UE ao acordo, em 9 de janeiro de 2026, apesar da oposição formal de países como França e Irlanda.
Na avaliação dos produtores rurais, o pacto amplia a entrada de alimentos importados produzidos sob regras ambientais e sanitárias consideradas menos rigorosas do que as exigidas na Europa, criando um cenário de concorrência desleal e pressionando a renda agrícola no bloco.
França amplia bloqueios e pressão política
Na França, maior produtora agrícola da União Europeia, agricultores pararam caminhões no porto de Le Havre, o maior porto de contêineres do país, e na rodovia A1, que liga Lille a Paris. No local, integrantes do sindicato Jovens Agricultores realizaram verificações simbólicas em cargas de alimentos importados, com o objetivo de chamar a atenção para a origem e os padrões de produção desses produtos.
Além disso, bloqueios foram registrados em depósitos de combustível nos portos de La Rochelle (região atlântica) e Bayonne (sudoeste), bem como em áreas agrícolas nos Alpes franceses. Tratores também voltaram a ocupar rodovias estratégicas, ampliando o impacto logístico das ações.
Mesmo após o anúncio de um pacote de apoio de € 300 milhões pelo governo francês e da proibição unilateral da importação de alimentos que contenham substâncias vetadas na UE, os agricultores mantêm as mobilizações. O setor avalia que as medidas são insuficientes diante dos efeitos estruturais do acordo com o Mercosul.
Irlanda reúne milhares em protesto nacional
Na Irlanda, cerca de 10 mil agricultores e trabalhadores rurais participaram de uma grande manifestação em Athlone. Com palavras de ordem como “Não ao Mercosul” e “Nossas vacas seguem as regras, por que as deles não?”, os manifestantes afirmaram que o acordo sacrifica o setor agrícola europeu em benefício de outros segmentos da economia, como a indústria automobilística.
Os produtores irlandeses pedem que o Parlamento Europeu rejeite o texto final do acordo, alertando para riscos à renda no campo e à qualidade dos alimentos consumidos no bloco.
Mobilização também avança em outros países
Os protestos se espalharam por outros países europeus. Na Polônia, cerca de mil agricultores marcharam com tratores até o centro de Varsóvia, argumentando que o acordo ameaça a agricultura local e pode abrir espaço para produtos que colocariam em risco a saúde pública.
Na Espanha, estradas e áreas urbanas foram bloqueadas, incluindo manifestações em Madri. Entidades regionais alertaram para impactos sobre a soberania alimentar e a viabilidade econômica do campo. Já na Bélgica, representantes do setor agrícola classificaram o acordo como uma “bofetada” nos produtores europeus, diante da entrada de carnes e açúcar produzidos com padrões considerados inferiores aos exigidos no bloco.
Críticas institucionais e expectativa sobre o Parlamento Europeu
A Copa-Cogeca, que representa agricultores e cooperativas agrícolas da UE, afirmou que o acordo é “fundamentalmente desequilibrado” e que os ajustes anunciados pela Comissão Europeia não resolvem as preocupações centrais do setor. Segundo a entidade, a aprovação preliminar pelo Conselho de Ministros apenas reforçou a mobilização dos produtores.
Com protestos previstos para os próximos dias, incluindo nova ida de tratores a Paris e manifestações em Estrasburgo, os agricultores europeus depositam no Parlamento Europeu a expectativa de barrar o avanço do acordo Mercosul–UE, em uma votação que promete ser apertada e politicamente sensível.










